quarta-feira, 29 de julho de 2015

Caneca Ligeira: 9 Canções (por Julio Chuman)

9 Songs - (2004)

Nós somos a geração globalização.

Nunca antes o mundo esteve tão conectado, nunca tivemos tanta possibilidade de adentrar em novas experiências, curtir novas sensações.

Por outro lado, somos a geração da insatisfação, aquela que não gosta de se sentir limitada, sejam lá quais forem os motivos. Queremos sempre mais. Temos um constante sentimento de vazio que, com o início das redes sociais, tem aumentado diante a impressão constante de que estamos perdendo algo – algo intrínseco quando vemos um grupo de pessoas que, sentadas em uma mesa de bar, consultam constantemente o Whatsapp para não se desatualizar.

Já um efeito colateral dessa vida sempre no máximo é que nossa memória afetiva, formada pelas nossas experiências, tem se tornado cada vez mais fragmentada, restringida aqueles momentos de maior visceralidade.



9 Canções, dirigido por MichaelWinterbottom, não é um filme para qualquer um. Não segue um roteiro distinguível, aparentemente apenas mesclando shows de rock e as cenas de sexo das mais explícitas possíveis. Os diálogos, quando existem, dão a constante sensação de que estamos pegando a conversa pela metade e saindo antes dela terminar. Por isso, ao vemos a cotação desse filme em sites como o IMDB, vemos notas baixíssimas a ele atribuídas.

Mas para aqueles poucos que conseguirem mergulhar para além dessa primeira camada do filme, vai encontrar uma reflexão mais profunda, diretamente ligada a nossa geração.

O britânico Matt (Kieran O’ Brien), narrador do filme, encontrando-se isolado do mundo enquanto trabalha em uma pesquisa na Antártida, buscar sintonizar em si aqueles sentimentos vividos em um passado não tão longínquo e que, como acontece conosco, se ancoram aqueles momentos "essenciais". Música, sexo, romance. Memórias que são tão incorporadas a nós que não há como fugir delas.

No outro lado da moeda, Lisa (Margo Stilley). Americana passando temporada em Londres que vive uma relação profunda, confusa e extremamente carnal com Matt. Epítome da nossa geração, em determinado momento da história enumera seus antigos casos (“um brasileiro, um argentino, um alemão”), em um reflexo da gama de experiências que nos é permitido viver, mas que também reflete bem a melancolia de não conseguir se prender a algo mais palpável.

Com uma trilha sonora que trazia o que de melhor havia no rock indie da época (Black Rebel Motorcycle Club, Franz Ferdinand, Von Bondies, Dandy Warhols, bandas essas já consideradas superadas pela atual geração, outro reflexo de nossos tempos), 9 Canções pode ser um filme de difícil digestão para a maioria, mas para mim foi uma experiência bastante deleitável.

Julio Chuman

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